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Governo adota terapia comunitária em programa nacional de saúde


Experiência, que surgiu em favela de Fortaleza, será expandida com a formação de 1,1 mil terapeutas

 

Emilio Sant’Anna

 

A terapia comunitária, experiência que surgiu em 1987 numa favela de Fortaleza (CE), vai integrar a partir deste ano o Programa Saúde da Família (PSF), do Ministério da Saúde. Convênio firmado com a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura destinará mais de R$ 2 milhões para a formação de 1,1 mil terapeutas comunitários. O treinamento será dado a partir deste mês em centros de capacitação espalhados pelo País. “O objetivo é conseguir uma aproximação ainda maior da comunidade”, diz a representante do departamento de Atenção Básica do ministério, Carmem di Simoni.

O PSF oferece hoje atendimento médico na área de prevenção, serviço odontológico, mas ainda não contava com a área de saúde mental. As sessões de terapia comunitária têm regras simples: um após outro, os participantes dão seus depoimentos. Desfiam histórias de angústia, depressão, violência e solidão. Alguns não falam nada, estão ali só para ouvir. Outros falam sem parar, estão ali só para serem ouvidos. Dali é escolhida uma história que será debatida entre todos.

Hoje, mais de 12 mil terapeutas já trabalham após serem treinados para conduzir as sessões. São médicos, psicólogos, enfermeiros e agentes de saúde que atuam em comunidades carentes, salões paroquiais, postos de saúde, hospitais e empresas. O lema é o mesmo para todos: “Quando a boca cala, os órgãos falam.”

Os casos mais freqüentes são estresse, conflitos familiares, dependência de álcool e drogas, questões ligadas ao trabalho, depressão e violência. No mês passado, o Estado esteve em duas reuniões desses grupos e ouviu o depoimento de pessoas em busca de acolhimento.

No Hospital Estadual de São Mateus, zona leste de São Paulo, a experiência deu tão certo que todos os dias é possível encontrar uma sessão de terapia sendo realizada. Ali, não só a comunidade é atendida, mas também funcionários, pacientes e familiares.

Uma das funcionárias é a assistente administrativa Regina Martins, de 36 anos. Perdeu a mãe e a cunhada no mesmo mês. No início da sessão, está calada. Uma enfermeira fala do medo que sente quando a filha sai à noite. Por ela, não sairia mais de casa. Regina pede a palavra, só quer deixar um recado para o grupo. “Às vezes deixamos de beijar nossa mãe e de dizer ‘eu te amo’ por bobeira”, diz. “Depois que ela se vai, não dá mais tempo.” Ela pára aí.

Para a surpresa de Regina, seu depoimento é o escolhido para ser debatido no grupo. Enquanto a história é detalhada, aparece uma mulher angustiada. A mãe bebeu por anos. O resultado foi uma família desestruturada. Quando largou o vício, veio o mal de Alzheimer. “Do jeito que estou conversando aqui hoje, nunca conversei com ela”, desabafa.

 

ATENÇÃO BÁSICA

Não é necessário ter formação superior para ser terapeuta comunitário, nem sequer trabalhar na área da saúde. O trabalho desses terapeutas passa longe da intervenção clínica, o foco está na diminuição do sofrimento e promoção da saúde mental. “A terapia comunitária acolhe, escuta, cuida e direciona melhor as demandas permitindo que só sigam para os níveis secundários de atendimento as que não foram resolvidas nesse primeiro nível de atenção”, diz o psiquiatra Adalberto Barreto, criador da terapia.

Acostumada com histórias como a de Regina, há sete anos Maria Selma da Silva Nascimento, do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento da Pessoa Humana (IBDPH), coordena a implantação de grupos de terapia em zonas carentes de São Paulo. “A terapia age onde o Estado não dá conta, evitando os casos de medicalização do sofrimento”, diz.







Fonte: Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo – Sábado, 05 de Abril de 2008 – VIDA& - Prevenção A34
(14/04/2008)

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