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Entrevista Ercília Zilli - Realizada pela Dra. Julia Nezu a RIE – Revista Internacional de Espiritismo - Dezembro 2006
Psicólogos Espíritas atendem população carente.
A Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas presta serviços gratuitos junto a instituições espíritas parceiras para crianças, jovens e adultos.
Atividades doutrinárias que exerce: Nasci em família espírita e nunca tive outra formação religiosa. Diante de uma imponente igreja católica no meio de uma praça em Bauru, fui freqüentar aulas de moral cristã num pequeno centro espírita que funcionava no quintal de uma residência. Na minha infância, falar sobre espíritos, mediunidade e reencarnação era parte do cotidiano. Quando vim para São Paulo, quis saber onde era o “Centro Espírita”, não imaginando a quantidade de centros existentes numa cidade tão grande. Conheci a FEESP, onde continuei meus estudos, freqüentei a Juventude, fiz o Curso de Evangelizadores e comecei a dar aulas para crianças, no tempo da Da. Alvina. Passado algum tempo, retomei meus estudos doutrinários no Centro Espírita Emmanuel (Mooca) e passei a dar aula no Curso de Aprendizes do Evangelho. Voltei a desenvolver atividades na FEESP, desta vez, na Área Federativa, realizando tarefas administrativas no Depto. de Conselhos, bem como palestras e eventos, o que me levou a conhecer um grande número de centros espíritas e seu funcionamento. Foi uma época muito rica de contatos, amizades e aprendizado, que guardo com grande carinho. Atualmente, ministro aulas, cursos, seminários e faço palestras em instituições espíritas, além do programa Novos Rumos, na Rádio Boa Nova, sempre vinculada a ABRAPE – Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas.
1. Conte-nos sobre os objetivos da fundação da ABRAPE - Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas.
A ABRAPE foi fundada em abril de 1994, como uma associação civil, cultural, sem fins lucrativos e que propõe a discussão aberta de vários temas presentes em nosso cotidiano e que procura atender às demandas do homem atual sob os diferentes focos do fenômeno religioso, estudando os eventuais pontos de convergência entre a psicologia e a religiosidade do homem, dentro da visão espírita. A consciência e a atuação na área social também se constitui em atividade-fim da associação.
2. Quais as atividades que a ABRAPE desenvolve junto à população carente, através das instituições espíritas?
As principais atividades voltadas à população carente são: • Projeto Terapia Social: trata-se de atendimento psicológico gratuito realizado em 30 instituições espíritas parceiras e direcionado a crianças, adolescentes e adultos carentes em acompanhamento individual ou em grupo;
• Projeto Humanizar: visa levar às comunidades a consciência de humanidade, reconhecendo os valores positivos existentes em cada indivíduo;
• Projeto Terapia Comunitária: é um programa de atenção primária na área de saúde mental, que utiliza a competência das pessoas, promove a construção de redes sociais solidárias e fomenta a identidade cultural das comunidades. Tem como objetivos lidar com as crises familiares, prevenir a violência doméstica, o abandono social, os sofrimentos psíquicos, desenvolver atividades de prevenção, tratamento e inserção social de indivíduos em estado de sofrimento psíquico. Ajuda no sentido de que cada pessoa se torne agente de sua própria transformação.
• Atividades de reflexão e ensino: palestras, supervisão de casos clínicos, cursos, grupos de estudos, pesquisas, seminários, simpósios, congressos, sempre buscando o estudo e o aprofundamento da doutrina espírita relacionados à psicologia.
3. Quais os congressos e simpósios já realizados pela ABRAPE? E qual a proposta desses congressos?
A ABRAPE já realizou vários simpósios, seminários e dois congressos com o tema central “Psicologia e Fé”. Nessas oportunidades, convidamos pesquisadores nas áreas da psicologia e das religiões, promovendo uma discussão científica e um diálogo inter-religioso, visando a ampliar os conhecimentos sobre o ser humano integral. Esses congressos resultaram numa imensa possibilidade de reflexão sobre os motivos da existência do homem e a importância da fé no processo terapêutico. A fé é fator de equilíbrio e de integração mental, emocional, psicológica e espiritual. Os psicólogos recebem, nessas oportunidades, um material muito importante para a condução das psicoterapias, além de outros trabalhos realizados na área da Psicologia, ampliando a visão do trabalho profissional para o objeto de todas as atenções, que é o espírito.
4. Conte-nos sobre o I Simpósio de Responsabilidade Social que a ABRAPE realizou na sede do Conselho Regional de Psicologia.
Esse evento, realizado em maio de 2003, foi um marco na história da nossa instituição, pois apresentou projetos selecionados dentro da ABRAPE e de universidades utilizando a psicologia na área social. Procuramos descaracterizar a Psicologia como um instrumento voltado, exclusivamente, às classes mais abastadas, mostrando a viabilidade de sua aplicação à população carente. Reforçamos a responsabilidade que cada cidadão tem no processo de transformação social, criando um mundo de maior equilíbrio, respeito e dignidade, usando a Psicologia como ferramenta. Na realidade, trabalhamos com o conceito de Emmanuel, quando diz que a sociedade é o nosso lar coletivo. Se é lar, é porque é família; se é família não é favor, se não é favor é direito, se é direito tem que compartilhar e ter espaço para todos.
5. Na Rede Boa Nova de Rádio você apresenta o programa “Novos Rumos” há quanto tempo e qual é o formato do programa?
O programa existe há 10 anos e é realizado em parceria com o meu amigo Enéas Canhadas, também colaborador da ABRAPE. Procuramos fazer um programa com questões do cotidiano, levando aos ouvintes a possibilidade de compreensão dos seus problemas, tanto num enfoque psicológico como espírita. Buscamos oferecer esperança e conforto num momento de grandes dificuldades sociais, morais e espirituais.
6. O seu livro “Espírito em Terapia – Hereditariedade, Destino e Fé”, é a sua dissertação de mestrado na Pontifícia Universidade Católica. Como foi defender uma tese espírita numa universidade católica?
Por parte dos encarnados, não tive problema nenhum. Houve, durante o período de aulas e créditos, um clima de amizade, respeito e incentivo, mesmo com todas as diferenças religiosas do grupo. Meus colegas eram padres, freiras e pastores, mas em momento algum, tivemos dificuldades de relacionamento. Aprendi muito sobre outras religiões. Com alguns, pela facilidade de morarmos na mesma cidade, o contato ainda continua. No dia da defesa, o salão estava cheio, incluindo algumas freiras, que compareceram, espontaneamente, vestindo os seus hábitos, e querendo entender o que uma espírita estaria defendendo naquele dia. Verbalizaram a sua curiosidade com relação ao tema que eu desenvolveria. A dificuldade maior e, isso eu nunca comentei, era a presença espiritual de um padre, durante o tempo em que eu estava escrevendo e que não queria que eu apresentasse aquele trabalho numa universidade católica. Mas, com orações e ajuda dos benfeitores, deu tudo certo, inclusive para ele.
7. Recentemente, você terminou uma pós-graduação na FGV – Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Qual é o tema defendido?
O tema foi “A fé como fator de motivação para o trabalho voluntário”. Teve como objetivo analisar, especificamente, o Projeto Terapia Social, desenvolvido por voluntários da ABRAPE em parceria com Centros Espíritas e, também, propor novas formas e estratégias para o crescimento e sustentação desse programa. Nossa associação trabalha fortemente baseada na ação de voluntários, porém precisava desenvolver critérios mais adequados para captação de psicólogos, adesão ao projeto, monitoramento e avaliação dos trabalhos voluntários. À partir de uma pesquisa com os voluntários e com as instituições parceiras, foram analisados aspectos quantitativos e qualitativos que nos permitiram estabelecer novas regras para esse programa de atendimento a pessoas carentes. O objetivo mais amplo desse trabalho é levar contribuições ao estudo do voluntariado religioso, principalmente na sua vertente espírita, no campo da psicologia, utilizada na área social. O interessante dessa monografia, desenvolvida a partir de uma instituição espírita, é que ela foi realizada em conjunto com um colega, que também acompanhou e participou de todos os trabalhos que envolveram a ABRAPE durante o curso, mas declaradamente ateu. Por acreditar no trabalho da ABRAPE e por lutar pacificamente por um mundo sem tantas desigualdades sociais, nossa convivência acadêmica foi muito fácil e agradável.
8. Atualmente, fala-se muito sobre crianças “índigo”? Como você vê esse tema?
Qual o papel dos pais dessas crianças? “A época atual é de transição; confundem-se os elementos das duas gerações. Colocados no ponto intermédio, assistimos à partida de uma e à chegada da outra, já se assinalando cada uma, no mundo, pelos caracteres que lhes são peculiares. pela natureza das disposições morais, sobretudo das intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir a qual das duas pertence cada indivíduo”. “A regeneração da humanidade não exige absolutamente a renovação integral dos espíritos: basta uma modificação em suas disposições morais”. “Em cada criança que nascer, em vez de um espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um espírito mais adiantado e propenso ao bem”. Diante dessas colocações de Kardec, no livro A Gênese, fica evidente que espíritos com melhores condições morais reencarnariam na Terra. Quanto a isso, não tenho a menor dúvida, pois Jesus já havia anunciado que os mansos herdariam a Terra. Entendo que o significado da palavra manso, aqui, seja, com tendências instintivas mais amenizadas, mais tranqüilas e equilibradas. A palavra índigo passou a ser utilizada depois que uma médium observou que crianças com características específicas de personalidade, tinham a aura num tom azul predominante. Nesse mesmo livro, Kardec nos alerta para que não entendamos esses novos tempos e essas crianças, na realidade espíritos com outra predisposição moral, como algo místico. Portanto, não me apego à palavra índigo, mas fico atenta para essa possibilidade de renovação planetária, proposta desde Moisés, objeto de uma força tarefa por parte de Jesus e apontada por Kardec. Mesmo diante de tanta violência e desatinos, assisto com muito entusiasmo a chegada dos novos tempos. Nunca se falou tanto em religiões e espiritualidade. Espero que os pais tomem os devidos cuidados na educação dessas crianças, não reprimindo as possibilidades regeneradoras que nos trazem, não deixando de exercer os limites quando necessários e, lembrando-se de que também são muito especiais, pois participam de forma importante no projeto divino de elevação do nosso planeta, uma vez que a eles foi confiada a tarefa de fazer florescer as sementes de esperança que a vinda desses espíritos representa.